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A vida na rua



Você já parou para pensar em quantas histórias incríveis e tristes podem estar escondidas debaixo das roupas esfarrapadas que as pessoas em situação de rua vestem enquanto perambulam pelas ruas da sua cidade?

Foi olhando mais de perto para quem está à margem da sociedade que descobri um refugiado que está no Brasil há cinco anos sonhando retomar a sua profissão, mas infelizmente o destino tem sido muito duro com ele.


Mas antes de encontrar o senhor Pedro, em um acaso da vida, conversei com outros moradores em situação de rua e gente que os socorre, para me ajudar a responder algumas perguntas sobre como é a vida de quem não tem um lar para chamar de seu.


Todos os nomes das pessoas em situação de rua foram alterados.



Coelho


As únicas informações do homem que eu iria procurar naquela noite chuvosa e muito gelada de inverno no Sul do Brasil eram o nome, o apelido e o local na rua que ele vive.


Vesti um gorro de lã, peguei meu gravador, preparei uma garrafa térmica de café com leite e uns sanduíches de mortadela para compartilhar com o entrevistado e sai em sua busca.


Seu José, o homem que eu procurava, “mora” na praça de uma igreja em Tubarão, no sul de Santa Catarina, há 22 anos.


Quando cheguei, a chuva deu uma pequena trégua e caia mais fraca. Aproveitei e desci do carro para tentar encontrar a minha personagem.


De longe vi um homem carregando dois cobertores. Apertei o passo para alcançá-lo. Já não enxergo mais tão bem como antigamente e só descartei que não era quem eu estava procurando quando percebi que era alguém muito jovem.


O rapaz que eu estava seguindo se abrigou na porta de entrada de um posto de saúde aos fundos da igreja. Me aproximei, o cumprimentei, perguntei se ele estava morando na rua, ele disse que sim, eu contei que tinha café e pão e no carro e iria trazer pra ele em seguida, mas que antes estava procurando pelo seu Luiz.


“ Seu Luiz?”, questionou ele?

“É, seu Luiz”, confirmei.

“Ele tem apelido?”, perguntou de novo.

“Tem, é Coelho”, respondi.

“Ah, o Coelho! Ele está dormindo ali...” e mostrou que ele estava em uma marquise precariamente precariamente protegido da chuva.


Fui até o carro, peguei o café, os pães e voltei.


Cheguei de mansinho e o acordei com toda educação possível: seu Luiz?


Ele tirou a coberta e escorou o braço direito no chão para ver quem o chamava. Seu Luiz dormia com todo o corpo debaixo da coberta. Então esfregou os olhos e me cumprimentou sorrindo. Ofereci os pães e o café com leite.


A chuva aumentou e eu me protegi na marquise. Seu Luiz, ou Coelho, me convidou para sentar e me ofereceu o café que eu havia levado. Sentei no degrau da porta do banheiro do salão de festas da igreja, enchi dois copos descartáveis, um para mim, outro para ele, peguei o gravador da mochila depois de perguntar se poderia gravar a nossa conversa para uma entrevista e começamos.


Seu Luiz então desandou a falar. Parecia uma metralhadora que disparava uma rajada de milhares de palavras por minuto. Talvez seja pela falta de alguém que dê crédito às suas histórias, como a daquela vez que ele gastou todo o dinheiro arrecadado por um padre para o aluguel de uma kitinet, fazendo um churrasco para seus companheiros de rua.


“O único que conseguiu lograr o padre foi eu. Uma vez o padre fez duas missas para conseguir dinheiro para eu alugar uma kitnet. Aí o padre me trouxe o envelope e disse: ‘Coelho, agora tu aluga uma kitnet’. Tava eu e a mulher e disse para ela: quer saber de uma coisa? Eu vou convidar esses andarilhos e vou fazer uma churrascada. Nós assamos uma carnarada ali atrás. ‘Hoje é por minha conta. Cachaça? Tenho, não tem problema’. Fiz isso tudo e fui dormir na santa (um local coberto na área externa da igreja)... e chegou o padre no outro dia: ‘aonde que tu alugou a kitinet?’. Eu respondi: padre, procurei por tudo, to com minha perna que não aguento mais, minha mulher pior ainda, que não consegue nem andar. Mas ele perguntou: ‘ta, mais alugasse?’. Eu falei: aluguei, não tá vendo a santa aqui? Cobrou dois meses adiantado. Aluguei com ela, olha ela tá sorrindo. Ô mas o padre ficou brabo”!


Apesar desses momentos engraçados, na rua nem tudo são flores. Coelho lembra da angústia que sente nas noites frias de inverno, quando o que resta a ele é agradecer por estar vivo quando amanhece.


“Tem dias que tu chora sozinho, tu chora, pelo amor de deus. Eu sempre agradeci a Deus e a Jesus. Se eu abri os olhos, eu to vivo, não preciso de mais nada”.


Mas pior do que viver na rua, para Coelho, é a indiferença de quem passa e finge que não vê. Quando toca no assunto, ele não aguenta e desaba no choro.


“Eu gosto de ser bom pros outros. Mas pensa que é fácil meu amigo? Aqui tu passa fome.  Mas Deus vai me levar lá pra cima, Só não quero deixar ninguém passar fome. Deus ajudou os peregrino aqui embaixo, Jesus era peregrino igual a nós. Já teve gente que tinha nojo de mim,queria ver o diabo na frente e não queria me ver. Eu nao deixo ninguem passar fome, se chega alguém aqui e pede esse pão, eu dou. Eu não sei negar um pedaço de pão. Jesus nunca negou um pedaço de pão pra ninguém”.


Nesse momento, aquele homem que me disse onde o Coelho estava, apareceu. Mas seu Luiz domina a entrevista e não deixa mais ninguém falar. Gambá queria me explicar como ele dorme e ao mesmo tempo cuida das suas coisas e de si mesmo.


“Na rua tem que ter peito. Eu conheço a intenção das pessoas só pelo andar, quando eu to dormindo. Se vem fazendo barulho, não é ladrão. Se vem pisando leve, vai fazer alguma coisa”.


No entanto, para a proteção de quem mora na rua ainda não inventaram nada melhor do que o bom e velho cachorro.


“É o cachorro que dá o sinal. Tu chega lá na esquina e o cachorro já late. A turma já fica de butuca”, explicou Coelho e depois recordou da Gorda, uma cachorrinha que viveu com ele muito tempo:


“A minha gorda tá com 24 anos, mas tá morando na casa de uma pessoa que ajuda ela. Eu não quero ir lá ver ela, porque se eu ver ela, vou sentir muito. Se desse um tapa na bunda de uma criança, ela te avançava. O maior cachorro que tinha aqui era a Gorda. Ela conhecia os andarilhos. E sabia quando era ladrão ou policial”.


O amigo do Coelho que se sentou para tomar café conosco, é o paranaense Rodrigo, de 22 anos. Ele está na rua há duas semanas apenas, por um motivo que leva muita gente a esta situação: a morte de alguém muito próximo. No caso do Anderson, foi a sua mãe quem morreu.


“Eu acabei nas ruas na semana retrasada porque a minha mãe morreu, não tinha como ir para lá, entrei numa depressão e não conseguia trabalhar para pagar a kitnet”.


Ao contrário de Coelho, Rodrigo não quer ficar na rua para sempre e tem procurado um emprego para poder pagar um aluguel.


Já quando Coelho tinha trocado o café por uns goles de corote, perguntei a ele o que sente quando começa a escurecer. A resposta outra vez foi emotiva e preocupada com seus companheiros.


“Cara, eu digo bem a verdade, peço bastante para Deus que ilumine meus colegas que estão do lado. O bom é dormir em dois ou três andarilhos, porque um fica de butuca no outro”.



Leojorge


Inúmeros motivos podem levar uma pessoa a morar na rua. O psicanalista Leojorge talvez tenha conseguido resumir bem em uma frase a fragilidade do nosso conforto.


“A distância entre estar na rua é de pequenos infortúnios e possibilidades da vida”.

Leojorge Panegali da Rocha é um comunista e ateu convicto de 35 anos que descobriu-se um militante político na faculdade de psicologia na universidade federal de santa catarina quando viu de perto a precarização e o sucateamento do ensino superior no estado.


Durante um mestrado em São Paulo, Leojorge praticou a psicanálise na praça, um movimento popular nas grandes cidades que atende pessoas que não tem condições de pagar uma sessão de análise particular. Quando voltou para Santa Catarina e veio morar em Tubarão, Leojorge tentou trazer a mesma abordagem para cá, mas nada saiu como o esperado.


“Aqui não funcionou. Passei dois meses indo para praça dos aos domingos, mas as pessoas não vieram”. Então eu acabava conversando com o pessoal em situação de rua. Fazia um lanche e distribuía enquanto e a gente conversa. Eu queria muito exercer a minha prática com quem não tem condições de pagar. Acho que eu fiz isso por uns oito meses, todo domingo. mas sem uma metodologia específica para além desta conversa com atendimento individual, é muito mais difícil”.


Leojorge então foi convidado por alguns amigos membros de pastorais sociais a participar de uma formação da Pastoral do Povo da Rua e tudo mudou.


“Os pilares da pastoral do Povo da Rua é a escuta da singularidade em rodas de conversa. Cada um fala uma vez e isso tem uma um efeito organizativo e social”.

Por esse aspecto singular, de procurar entender cada um de maneira particular, com sua história e suas dores, os defensores deste tipo de abordagem entendem que a escuta ativa precisa acompanhar as doações.

“A escuta tem a intenção fundamental de tirar a pessoa da rua. É para isso que serve a Pastoral do Povo da Rua, para tirar as pessoas da rua pelo movimento delas, por uma restituição de um lugar que não seja aquele lugar que ela se entenda como o resto da sociedade”, detalhou Leojorge


Uma das maneiras mais populares e talvez mais controversas de ajudar uma pessoa em situação de rua é dar esmola. Leojorge tem ressalvas as orientações de não serem dadas ajuda direta em dinheiro a quem pede:


“É comum o pensamento de que se dermos esmola, a pessoa não vai procurar emprego. Isso é verdade para algumas pessoas. Eu conversei com pessoas na rua que vão se adaptando e naturalizando viver em situação de rua. Se não receber esmola ela não vai procurar emprego, porque ela acredita que é o resto da sociedade, que no final das contas merece morrer de fome. Não dar esmola é comprovadamente ineficaz como política pública de superação da situação”.


Algo incompreensível para quase todo mundo é a recusa de alguns moradores em situação de rua recusarem abrigo em albergues. Leojorge explica que o ponto principal que faz muita gente preferir a rua a um abrigo, é a falta de individualização:


“Primeiro, é ter que ficar num lugar que tem suas regras e que não é própria casa. Depois tem os casais separados que ficam separados. Os animais é outro problema dos abrigos e o animal é uma coisa importante para a pessoa na rua. O cachorro funciona como um alarme para ninguém te roubar ou te agredir quando estão dormindo. O cachorro é um elemento de segurança e companhia, não é um fetiche. Outro detalhe sobre os albergues, é que eles têm um período de carência: você fica durante 30 dias e tem uma carência de 90 dias para voltar”.


A solução para as pessoas que querem sair da situação de rua, contou Leojorge, é a individualização do sujeito.


“É necessário que a pessoa estabeleça a sua singularidade e ter um espaço seu, no qual você determina quem entra e quem sai, que horas você dorme, que horas você come”.



João Guilherme


As duas casas simples, no centro de Tubarão, tem muito mais do que um amplo jardim arborizado nos fundos, cozinha, sala de convivência e leitura, banheiros e muitos quartos com beliches. Ela reúne histórias de vida de gente que chega até ali em busca de ajuda e encontra roupas novas, comida, banho, um local para dormir e uma luz na escuridão.


Tudo isso é mantido com um convênio com a prefeitura e a ajuda de voluntários, seja por doação de alimentos, material, dinheiro ou colocando a mão na massa.


O projeto João 3:16 começou há 11 anos com outro João, mas o João Guilherme Lopes Pacheco, um jovem de apenas 27 anos, formado em direito, que dedica a sua vida a ajudar os outros.


“Aqui a gente trabalha com três modalidades de acolhimento”, começou Guilherme para explicar o funcionamento do projeto:


“Temos a modalidade do dia para quem não consegue ficar dentro de um ambiente e vem só para tomar um banho e trocar de roupa. Tem aquelas pessoas que são pernoite. Estas são as albergadas. Elas chegam às 17 horas e saem de manhã. E  tem a casa de passagem para acolher as pessoas com questões familiares e pessoas que estão cumprindo algum tratamento contra o uso de drogas e não tem moradia”.


Quando cheguei no projeto, vou admitir que a primeira coisa que me saltou aos olhos foi a quantidade de grades e portões cadeados. O próprio João Guilherme esperou que abrissem um portão de ferro por fora para poder me receber. 


Depois, ele teve dificuldades para encontrar as chaves de outra grade e de outra porta. A primeira vista pode parecer um pouco exagerado, mas tente imaginar como seria a convivência entre tanta gente, sem regras.


Porém, mesmo necessárias, são justamente as regras um dos motivos que costumam afastar muitas pessoas em situação de rua dos abrigos e albergues. João Guilherme diferencia os que aceitam o acolhimento nos abrigos e os que não querem essa ajuda.


“As pessoas que têm a sua liberdade, não conseguem ficar dentro de um abrigo, porque existem regras. E tem as pessoas que optam por ficar na rua. Esta é uma opção delas. Elas colocaram no seu coração que a rua seria a sua situação, que ficarão na rua até o fim. Essas pessoas não tem um objetivo, não tem uma esperança de sair da rua. Às vezes a gente encontra pessoas que querem uma transformação, querem essa essa mudança de vida”.


Assim como perguntei ao psicanalista Leojorge, questionei João Guilherme sobre as esmolas e qual seria a melhor decisão para quem quer ajudar uma pessoa em situação de rua:


“O nosso povo é muito generoso. O tubaronense tem um coração muito grande. Mas o que a gente fala é para as pessoas procurarem instituições ou lugares que abrigam essas pessoas que estão em situação de rua e ajudem esses locais. Quando você ajuda dando alguma coisa diretamente para uma pessoa em situação de rua, ela vai manter o vício dela naquele lugar né vai lá e é muito triste ver uma pessoa que é dependente química”.

Quis saber então qual seria o caminho para conseguir tirar alguém das ruas, mesmo sabendo da individualidade de cada caso. João explicou um método:


“Cada um tem a sua história. Para cada um tem uma forma de trabalhar. Se a pessoa quer ser restaurada, primeiro nós fizemos uma triagem e um encaminhamento para uma comunidade terapêutica. Nesta comunidade terapêutica, ela passa por um atendimento psicológico e psiquiátrico. Também vai cuidando da sua vida espiritual. Mas se ela não quiser o tratamento é muito difícil a gente conseguir resolver a situação dessas pessoas”.



Ricardo


Depois de uma semana inteira de frio e chuva, o sol deu as caras e aproveitei o domingo ensolarado para dar uma caminhada logo cedo pelo centro da cidade. 

Flanei por uma hora e meia quando vi um senhor sentado ao sol, de gorro de lã, máscara facial, mocassins sem meias, luvas, uma bolsa a tiracolo e um cartaz feito de papelão, pendurado em sua jaqueta surrada, que dizia:


“Por favor me ajuda (sic) com um trocado”.


Me desculpei por não ter nada para ajudá-lo e pedi licença para sentar, logo que começamos a conversa.


E a decisão de me importar com aquela pessoa permitiu que eu conhecesse a incrível história de Ricardo, um venezuelano de 61 anos, que partiu há cinco da cidade de Maturin, capital do estado de Monagas, para o Brasil.


“As cidades da Venezuela parece que estão na Segunda Guerra Mundial. Tem muita gente mendigando na rua, não é fácil cara. Na Venezuela só se come uma vez ao dia ou muitas vezes nem come nada. As pessoas lá estão magrinhas, fracas, muitas necessitadas. Eu tive que sair da Venezuela pela vida ou pela morte”.


A história de Ricardo ainda tem um drama a mais. Quando seu irmão ficou doente e precisou de ajuda médica, encontrou a morte, ainda na Venezuela.


“Eu perdi um irmão lá por falta de antibiótico. Imagina, você chegar a um hospital e preferem dar a eutanásia do que dar medicamente, porque não tem medicamento, não tem nada. Tem muito petróleo para muita pobreza também, o governo não adianta, tive que tomar a determinação de sair, de deixar a minha casa com tudo”.

No Brasil, o primeiro destino de Ricardo foi Roraima.


“Fiquei quase um ano em uma ONG que se chama Cáritas. Até que saiu uma lista de pessoas e chamaram meu nome para sair de lá. Aquilo foi música para os meus ouvidos. Depois vim para cá de avião porque é muito longe e aqui estou moço”.


E aqui, as coisas iam bem para Ricardo. Ele tinha um emprego que lhe garantia a renda para pagar aluguel e se alimentar. Mas a sorte o abandonou. Ele sofreu um AVC e as sequelas paralisaram o lado direito do seu corpo. Depois disso, ele perdeu o emprego, foi despejado e vive dias na rua e dias em uma casa de acolhida.


“Tem uma casa de acolhida, porém é como uma cadeia em regime aberto. No segundo dia já tive problemas. É preferível estar na rua, porque eu já tenho esse problema de saúde (as sequelas do AVC) e não posso ficar nervoso”.


Mesmo na rua, Ricardo garante que só pede porque se vê obrigado pela necessidade e que mesmo assim usa o pouco que ganha apenas para se alimentar.


“Eu não consumo droga e nem álcool. Eu peço pela necessidade que tenho. Eu não saio na rua a pedir por pedir, por pedir. Faço isso por necessidade, só por necessidade”.

Na Venezuela, Ricardo era um artista plástico e mesmo sem pintar um quadro há cinco anos, ele não fala da profissão no passado e abriu que tem um sonho secreto:


“Estou reunindo dinheiro para comprar óleo, tela e pincel para pintar na rua”. Meu sonho aqui é voltar a pintar e ensinar, compartilhar o meu talento, porque tenho conhecimento, eu estudei até segundo nível, é bom, nunca estudei a universidade, mas assim, essa é minha vida, minha pobre vida”.

Quando toquei no assunto “frio” com Ricardo, ele demonstrou muito mais a atenção ao presente, sem se preocupar com o que passou ou o que passará e falou do sol que estava nos esquentando naquela hora.


“Agora tá fazendo muito frio, mas tem o sol, que é por algo bom. Deus deu o sol para o pobre. O sol acalenta o pobre. Deus dá, Deus tira. É assim”.


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