Italianos e alemães, que migraram em massa para a região Sul no final do século 19, partiram em busca do sonho de fazer a América. Já os negros da diáspora africana foram arrancados de suas terras e embarcados a força em porões desumanos.
Enquanto os navios dos europeus trouxeram esperanças, os dos africanos vieram carregados de dor e sofrimento.
Esta reportagem faz parte do primeiro episódio da série “Em Busca das raízes africanas” do Aiurê Podcast e a intenção é mostrar como cada uma dessas três etnias (italianos, alemães e negros) mantém suas ligações com o passado no Sul do Brasil.
Foram visitadas uma colônia italiana com mil e poucos habitantes, um distrito alemão com cerca de 1500 moradores e uma comunidade quilombola com 160 famílias.
Nesta primeira parte estão as histórias dos descendentes de italianos e alemães para contar sobre o processo de colonização e o que eles pensam sobre a dificuldade dos negros brasileiros para buscar as suas raízes.
Por todo o lugar há ruas com sobrenomes de italianos e uma réplica da Torre de Piza será construída aos pés da colina que leva até a igreja de São Marcos.
A economia de Azambuja gira em torno da produção de vinho artesanal e da agricultura familiar. Há também uma mineradora, um grande engenho de farinha de mandioca e uma pousada com restaurante com a temática italiana.
Visitei esta comunidade no sábado e encontrei ruas vazias.
Rodei alguns minutos apreciando a tranquilidade e o silêncio do lugarejo, que além da tradicional praça central, tem um cemitério centenário dos primeiros imigrantes italianos, uma barbearia, um pub, dois mercadinhos e um açougue.
Os pontos mais movimentados eram dois barzinhos que ficam dentro de um dos mercados e do açougue.
Nane
E foi nesse bar/açougue, que eu encontrei o primeiro descendente de italiano, que me desafiou logo de cara, enquanto bebia uma dose de vermute:
“Vai querer falar italiano comigo? Sabe falar italiano?”.
Assim conheci, Nane, apelido de Ergelano Baesso (nome que nem o próprio gosta de pronunciar e que por isso, me deu a sua carteira de identidade para que eu mesmo pudesse ler).
“Eu não vou nem falar o meu nome porque meu nome é complicado. Todo mundo me conhece pelo apelido, Nane, agora por nome”.
E é com a sua mãe, principalmente, que Nane, mantém as raízes com a sua origem e o idioma dos seus antepassados:
“Com a minha mãe eu só falo italiano - conta Nane com o sotaque carregado, ao mesmo tempo que reclama porque os mais novos não aprendem a língua italiana”.
Apesar disso, Nane, que chama os brasileiros de baieco, uma gíria antiga dos imigrantes italianos, não tem muita preocupação com a história dos seus antepassados.
Nane, então, fez martelar na minha cabeça uma outra pergunta: os descendentes de africanos, apesar de todos os obstáculos e do apagamento de seu passado, estão procurando e valorizando mais as suas origens do que os que descendentes de europeus?
Tadeu Rodrigues
Ainda em Azambuja encontrei o artesão Tadeu Rodrigues e, a despeito do sobrenome português e do sotaque nativo de Florianópolis, apostei na conversa.
O ateliê de Tadeu, fica em frente à sua casa e a sua carpintaria. Para ir de um local ao outro, basta atravessar um riacho de águas limpas.
Tadeu conheceu Azambuja ao atender um cliente. A paz que ele conheceu na antiga colônia italiana e a vontade de estar mais perto das origens o fizeram ficar.
“A minha falecida avó, Armindia Damian Preve nasceu aqui”.
A avó de Tadeu é filha de italianos e ele relembra com orgulho o que aqueles colonos passaram ali.
“É legal o cara saber o quanto o pessoal matou no peito, na raça, pra começar isso aqui. Não foi fácil”.
Embora Tadeu tenha retornado para o local de origem de sua família, ele é outro descendente de italiano que sabe pouco sobre a história dos seus antepassados.
“Eu curto ler bastante mas nunca tive interesse assim, até porque o cara trabalha bastante, trabalho todos os dias mesmo, então o cara acaba deixando. Às vezes o cara vai ler um pouco e causa do cansaço lê umas duas páginas e já dorme”.
A origem de Tadeu, no entanto, não o impede de pensar nas diferenças do que passaram e passam os descendentes de africanos e os descendentes de europeus.
“As vezes eu paro pra pensar assim, a gente conversando com uma pessoa ou outra, vai conhecendo através da arte, até ontem eu fui entregar umas janelas para um cliente e ele falou contou que o seu bisavô era dono da terra que passou para o seu avô, depois para os pais, hoje é dele e vai ficar para os seus filhos”, refletiu Tadeu sobre o fato de que os negros jamais receberam terras para chamarem de sua.
E o artesão ainda contou o que sofria um homem negro em Azambuja há uns 50 anos.
“Aqui em Azambuja tinha família de negros e o pai, nos domingos, ia no barzinho com o pessoal bater um papo e às vezes tiravam o cara pra chacota, botavam ele dentro de um latão e colocavam ele rolando lá do morro da igreja. Eu hoje eu fico pensando, que a gente vê poucos negros aqui. No vilarejo mesmo eu não vejo”.
Então Tadeu emendou na sua reflexão outra história infeliz:
“Um dia, trocando uma ideia com outro cliente, ele disse que quando morou em Pomerode, viu numa festa na praça o prefeito subiu no palanque e falar que se orgulhava da cidade porque não tinha nenhum negro lá. Vê só! Isso é doído, ver um comentário fascista assim”.
Nino
Seguindo uma dica de Tadeu Rodrigues, dirigi por quase um quilômetro, para me encontrar com Alcides José Strauss, o Nino, agricultor e produtor de vinho, queijo e salame.
Ele e a família ainda vivem na mesma residência centenária, toda de pedra, construída em 1890 pelo seu bisavô, um italiano que trabalhava na fronteira entre a Itália e a Áustria construindo casas igual a que ele fez no Brasil.
Os antepassados de Nino vieram do Norte da Itália. Preocupado em manter as ligações com o passado, ele ressaltou que o italiano falado em Azambuja é um dialeto do Vêneto e reclamou que os mais jovens estão deixando a cultura dos imigrantes se perder.
“Até quando eu estiver vivo, vou contar a história, mas depois os filhos de repente não vão contar, não vão saber. Mesmo assim eu vou falar para eles levarem adiante também”.
O interesse de Nino pelo passado da sua família veio quando ele ouvia as histórias contadas pelos mais velhos.
“Eu tinha uma tia que gostava de contar muito, eu aprendi bastante com ela. Eu perdi o pai meio cedo e na época eu não me interessava em ficar perguntando muita coisa. A minha tia vinha todo mês nos visitar aqui ou eu ia visitar ela e então ela me contava todas as histórias”.
E Nino valoriza a possibilidade de poder conhecer de onde ele veio e como as coisas começaram para os seus familiares lá no século 19.
“Quem tem conhecimento do passado dá mais valor às coisas de hoje - apontou Nino e continuou: tem gente que julga os imigrantes falando ‘ah, eles vieram da Itália para cá e ganharam os terrenos’. Mas não foi bem assim. Claro que eles ganharam os lotes com 30 hectares para cada família, só que eles tinham que desmatar, desbravar e produzir. E o título de posse só veio nos anos de 1930, 52 anos depois que eles chegaram. O meu bisavô morreu em 1925 e quem viu o terreno escriturado foi o meu avô”.
Os alemães de Vargem do Cedro
Uma semana depois da visita à Azambuja, fui ouvir os descendentes de alemães que chegaram a Vargem do Cedro, também no Sul de Santa Catarina, em 1880.
Para chegar à Vargem do Cedro é preciso passar por empresas e ruas com sobrenomes em alemão. Quase esquecemos que ainda estamos no Brasil e que há pouco mais de 150 anos, o povo da etnia Laklãnõ Xokleng habitava vastamente aquela região.
Vargem do Cedro parece ainda mais tranquila do que Azambuja. Apenas o movimento de turistas, que perto do meio-dia começam a chegar para os restaurantes que servem almoço e café típicos, quebra o sossego do lugar.
No centrinho de Vargem do Cedro há uma praça, uma escolinha, uma igreja católica com pequeno museu aos fundos, uma fábrica de bolachas, cerca de duas dúzias de residências sem muros e uma casa comercial que funciona desde 1910 nas mãos da mesma família.
Walburga e Teobaldo
Se eu fosse esperar para encontrar alguém na rua, talvez estaria lá até agora com o celular nas mãos para gravar a conversa com os moradores locais. A solução, claro, foi a velha tática milenar de bater palmas na frente de alguma casa escolhida aleatoriamente.
Um senhor parece ter me visto, mas escapou antes de qualquer contato visual. Não julgo, talvez eu também faria o mesmo...
Em seguida, vi uma senhora e um rapaz lavando a garagem da casa. Me aproximei torcendo para que eles não fugissem pensando que eu iria tentar lhes vender algo, ou levar a palavra salvadora de alguma religião. Eles não fugiram! E contrariando o que eu esperava, me receberam muito bem, menos a Lê, uma pinscher que me recebeu latindo:
O casal Teobaldo Heiinzen e Walburga Feuzer Heiinzen, descendentes de alemães da região da Westfalia e ainda falam o idioma dos seus antepassados.
“O meu filho”, disse a dona Walburga, apontando para o rapaz que estava na frente da casa, “quando era pequeno só falava alemão. Quando foi para o jardim, perdeu. Mas ele entende. Mas nós dois falamos bastante alemão entre nós aqui”.
Como era de se esperar, a dona Walburga valoriza muito o conhecimento da cultura do país de origem da sua família.
“É muito importante saber da sua origem e manter. Aqui nós mantemos isso na comida, na música e alguns costumes. Eu lembro de quando era criança, dos cantos e das conversas em alemão”, recordou e como os italianos, também se preocupa com o futuro dessas tradições.
O pensamento da dona Walburga veio ao encontro do que outros descendentes de europeus têm reclamado: do pouco caso das novas gerações pelas origens.
Se em Vargem do Cedro, disse dona Walburga, não vive nenhuma família de origem italiana, a resposta da pergunta “e de africana tem alguma” não poderia ter sido outra.
“Também não - respondeu dona Walburga e depois concluiu”, mas de uns anos atrás começou a misturar, antes era o alemão purinho aqui dentro.
O antigo armazém de secos e molhados da família Feuser aberto em 1910, fica bem no centrinho de Vargem do Cedro. Antigamente, os Feuser vendiam ferramentas para o trabalho na roça, tecido em metro, tamanco, itens de cozinha, sal e querosene para os colonos. Hoje eles vendem licores, bolachas, geleias, mel, cachaça e lembrancinhas para turistas.
A localização ao lado da igreja dedicada a São Sebastião não é uma coincidência. Foi Antonio Effing, bisavô de Cacilda Feuser, atual proprietária do local, quem doou as terras em volta da que ele tomou para si, na divisão com mais três imigrantes que chegaram ali em 1880. Além do terreno para a igreja, ele também doou um para a escola das freiras, outro para o cemitério e um para a praça, deixando o espaço do seu futuro armazém no centro da pequena vila.
Entrar na loja é como viajar para as primeiras décadas do século 20. A pintura, os móveis, o teto e o assoalho ainda são os originais. Nas vigas que sustentam o telhado, também da época, estão os pregos onde penduram as mercadorias. Em um canto do armazém existe um pequeno museu com itens da família, de amigos e de vizinhos.
Quando entrei no armazém, tocando um vinil de Simon and Garfunkel.
Eu queria muito falar com o pai da Cacilda. Mas infelizmente, aos 93 anos e depois de dois AVCs, ele não estava em condições de dar essa entrevista. Ainda assim, Cacilda ouviu muitas histórias de seu pai e de seu avô e mantém a tradição familiar do comércio e de longas conversas e causos sobre a imigração alemã e a história de Vargem do Cedro.
“O passatempo era ouvir as histórias que eles contavam de antigamente, de quando foi desbravado, a luta que eles tiveram com os indígenas. Eles contavam que se confrontavam com os indígenas, porque eles plantavam para comer e os índigenas tiravam a plantação e o milho, quer dizer, roubavam deles”, narrou dona Cacilda sem mencionar que os indígenas viviam ali muito antes da chegada dos europeus.
Dona Cacilda também relatou a existência de resquícios da presença dos povos originários em Vargem do Cedro, como sinais de fogueiras e artefatos indígenas.
“No meu tempo de criança a gurizada achava muita ponta de flecha nas roças. De vez em quando alguém achava e trazia para escola. As flechinhas eram feitas de pedra, bem feitinhas, muito bonitinhas”, recordou e disse que no museu atrás da igreja tem muitas dessas flechas.
Depois de dona Cacilda ter contado sobre os indígenas, quis saber se ela acreditava que os mais novos ainda mantêm a tradição de aprender o alemão em casa e como estava atualmente a cultura germânica em Vargem do Cedro.
“Até uns 25 anos atrás, aqui era 99% alemão. E depois, com os empregos nos restaurantes e nas fábricas de bolacha, o pessoal começou a ficar aqui e se casar com gente de fora. E aí esse pessoal não falava o alemão, tiveram filhos e o casal entre si só falava português. Outra coisa é que hoje as crianças vão muito cedo para a creche e as professoras não falam alemão. Se eles não falam nem em casa e nem na escola vai se perdendo”, detalhou dona Cacilda.
Tal como em Azambuja, os antepassados europeus de Vargem do Cedro também falavam um dialeto e não a língua oficial, que dona Cacilda aprendeu e sabe falar.
Outra coisa que os descendentes de italianos e alemães tem em comum é a valorização das dificuldades que os imigrantes passaram, mesmo tendo recebido terras do governo brasileiro, a despeito do que receberam os negros após a assinatura da Lei Áurea.
“Eu tenho livros que contam toda a dificuldade que eles tiveram na travessia do oceano e aqui, depois de se instalarem. Eles saíram da Alemanha com uma promessa, mas quando chegaram aqui não tinha nada dessa promessa. Então lógico, eles conseguiram as terras, mas com muito esforço. Acho que eles imaginavam que iam chegar aqui e já ter uma casa, alguma coisa, mas não, ficavam em alojamentos até serem destinados às colônias”, discorreu dona Cacilda.
Enquanto Cacilda reclamava que os alemães ficaram em alojamentos, foi impossível não pensar nas condições terríveis que os africanos sequestrados em sua terra enfrentaram nas senzalas.
Depois disso, quis saber se Cacilda já havia pensado que é praticamente impossível para os descendentes dos escravizados descobrirem o nome de seus antepassados mais antigos.
A resposta foi curta.
“Não, não pensei nisso, porque assim também a gente tem muita coisa pra fazer, muita coisa pra pensar, mas eu nunca pensei mesmo nisso aí”.
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